Templates da Lua

Meu perfil

André, aprendiz de escritor que observa o cotidiano e tenta colocá-lo em texto, morador da caótica, porém bela cidade do rio de janeiro universitário de psicologia dentro da casa dos 20 e longe de sair da mesma por enquanto. Teimoso, sarcástico e tímido que demonstra pouco seus sentimentos. Aquele que ainda não escolheu o estilo literário por gostar de vários, que cria uma história do meio do nada e nem sempre a conclui, que ainda acha que honestidade é algo válido e não uma coisa íncrivel que assusta ao se ver. Bem vindo ao blog

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1 - Se for copiar, dê os créditos devidos.
2 - As histórias são fictícias.
3 - Divirta-se e bem vindo!


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29/6/08

Busca de figuras

O vapor da água quente dominava o banheiro a pelo menos vinte minutos, ao sair passou a mão no espelho embaçado e jogou os cabelos de um modo tosco, se perfumou e foi para o quarto, preparada para o “combate”. Prendeu os longos cabelos negros, pintou o rosto e aumentou alguns centímetros com o salto alto e caminhou para a sala de combate. Viu o “inimigo” ali, sentado a espreita de um erro seu. Achou estranho ele não iniciar o combate, e por isso deu o primeiro tiro:
- Pai. Estou indo para uma festa de aniversário. Da Fernanda, você a conhece - usou isso como um trunfo – eu já disse para ela que iria e a minha mãe deixou – segundo tiro – Pai? Você está ouvindo.
- Sim, alto e claro minha filha. – respondeu ele sem mudar o tom de voz, a deixando preocupada.
- Bom – continuou ela – como eu disse, irei para a festa, é em uma boate não muito longe daqui.
- Certo – disse com o mesmo tom de calma de antes.
- E como a cidade está muito perigosa, vou chegar de manhã cedo – terceiro tiro.
- Realmente a cidade anda muito perigosa, chegar de manhã é melhor do que você chegar de madrugada, mesmo alguém te trazendo de carro – a calma continuou entranhada em sua voz – na minha época eu fazia isso também.
- Na sua época, pai? Tinham boates na sua época?
- Sim, com uma quantidade menor de corpos bonitos sem cérebro e com menos drogados eufóricos. Os jovens de hoje se preocupam tanto com o corpo, com o peitoral e o “tanquinho” e esquecem de malhar a massa encefálica.
- Quem precisa ser inteligente com um peitoral definido? – disparou ela
- E pelo visto eles não são os únicos a pensar assim. Você leu algum livro que eu te dei?
- Não, tem muitas páginas.
- Engraçado, alguns têm uma quantidade de páginas menor do que suas revistas de fofoca.
- Pai esses livros não tem figuras! – disse como se fosse um absurdo.
- São livros para leitura, querida e não livros para colorir por isso não tem figuras, aliás, alguns até têm figuras ilustrativas. Seria só questão de procurar. – sentindo que a estratégia começava a funcionar continuou – se subir ao seu quarto e trazer aqui para baixo podemos procurar as figuras.
- Procurar figuras? – disse tentada – acho difícil você achar alguma em algum desses livros que você me deu – começou a achar mais interessante mostrar que o pai estava errado – vou trazer todos aqui para baixo e vamos ver se há figuras em algum deles!
- Devagar filha, pois são quase trezentos livros – disse fingindo preocupação.
- Eu faço mais de uma viagem – disse descendo as escadas com o cabelo agora já solto e voltou a subir, na última pilha de livros que trouxe já estava com roupa de dormir.
- Senta aqui do meu lado, vamos começar a procurar essas figuras – disse o pai, vitorioso.


Escrito por Kaworu às 07:13:39 PM
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20/6/08

Ditado

 Chegou. Falou. Escutou. Respondeu. Alegou. Injuriou. Agrediu. Agrediu novamente. Gritou a plenos pulmões. Chutou. Falou mal. Parou. Chorou. Tomou um gole. Dois. Três. Acabou com a garrafa. Brincou com o gato. Xingou o gato. Jogou o gato longe. Tomou a segunda garrafa. A terceira. Quarta. Andou. Voltou. Avançou. Pegou a seringa. Aplicou. Viajou. Queria mais. Picou-se novamente. Acabou. Jogou a seringa na mesma direção onde jogou o gato. Precisava de mais. Mais. Mais. E mais.

 Saiu pela rua. Ignorou o “oi” da velha fofoqueira. Pulou o muro. Correu pelo beco. Escalou outro muro. Bateu na porta. Disse o código. Entrou. Lugar imundo. Sentou. Esperou. Esperou. Ele chegou. Pediu mais. Ele negou. Queria o pagamento anterior. Prometeu pagar o mais rápido possível. Recebeu o que queria. Saiu. Pulou um muro. Correu pelo beco. Escalou outro. Respondeu ao “oi” da vizinha gostosa. Entrou em casa.

Acendeu o fogão. Jogou a panela. Vazia. Olhou em volta. Tudo virado. Tudo jogado. Tudo sujo. Deu de ombros. Pegou a arma. Mirou um alvo invisível. Pegou as balas. Saiu. Escondeu a arma debaixo do casaco.  Ficou de frente ao mercadinho. Entrou. Fingiu interesse em algo. Espero o descuido. Tirou a arma do esconderijo. Apontou. Assustou a menina sardenta. Mandou colocar o dinheiro na sacola. Ela obedeceu. Ele saiu. E com o coração na mão chegou em casa. Riu. Jogou o dinheiro para o alto. O fogão continuava ligado.

 Escutou baterem na porta. Demorou. Insistiram. Ignorou. Insistiram novamente. Ignorou. Arrombaram a porta. Homens de farda. Ele se assustou. Eles pediram calma. Ele não aceitou o pedido. Pegou a arma. Atirou. Correu. Os homens revidaram. Erraram. Acertaram no botijão. Explosão. Nem dinheiro e nem seringas. Pouco sobrou.


Escrito por Kaworu às 03:53:38 PM
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12/6/08

O valentão

 As roupas brancas contrastavam com as peles negras e morenas, na época com certeza mais ainda do que hoje, o uniforme era uma salvação, salvação de uma vida sem perspectiva. No meio dos homens no navio, ele ficou com o esfregão, limpar o chão não era o pior dos trabalhos. Os braços finos de que começou na vida militar a pouco tempo balançou o esfregão de um lado para o outro.

 Sentiu a chegada dele com medo no coração, por sorte passou por ele sem falar nada, talvez na próxima não tivesse a mesma sorte. O braço forte com uma tatuagem em forma de âncora derrubou o rapaz, propositalmente.

- O que é? – disse o tatuado, como se o rapaz tivesse dito algo – quer apanhar? – perguntou inflando o peitoral – espero que não, porque fraquinho do jeito que você é, vai perder rápido.

- Não – disse o rapaz assustado – tudo bem, eu tropecei sem querer – eu assumo a culpa, eu que esbarrei em você e cai – falou subserviente e com o coração pulsando.

 De longe o rapaz do esfregão observava a cena, meio indignado, porém ali ficou com o esfregão a tiracolo.

- Me encontre na parte baixa do navio, resolvemos nosso problema lá – saiu socando o ar.

- Marujo, você vai precisar de muita sorte – disse um companheiro de trabalho – esse cara sempre chama os outros para brigar e até hoje ninguém foi, e por isso ele ficou assim, mas quem iria brigar com esse cara!?

- Eu sei, já ouvi falar dele, mas eu não vou fugir.

- Vai encarar o grandão? Enlouqueceu?

- Se eu não encarar ele vai me humilhar durante toda a vida, ele é meu sargento.

- Mais um motivo para você não ir.

- Eu vou.

Desceu as escadas tentando controlar o medo, sabia que se fosse para a luta de mãos limpas no mínimo seria hospitalizado, procurou por algo de útil no porão, ao encontrar uma barra e ferro a escondeu rente ao corpo e esperou encostado numa das paredes do porão.

 Escutou os passos pesados de um corpo pesado, pesado não, forte, as pernas começaram a tremes e o coração saltitar. O medo quase o fez sujar as calças a barra de ferro tremia em suas mãos. Ele apareceu com as mãos na porta e riu ao ver o franzino o esperando.

- Você veio – falou surpreso – achei que não viria – já que você veio, vamos começar – estalou os dedos ameaçadoramente e o corpo estável do adversário permaneceu imóvel e o valentão ficou surpreso – olha, é corajoso, gostei de você, marujo. Se mexerem comigo me avise, pois eu dou um jeito, gosto de gente corajosa, é o primeiro que veio brigar comigo. Qual seu nome marujo.

- Delmiro – aumentou a voz tentando fingir firmeza.

- Delmiro, precisando é só me chamar – retrocedeu os passos e subiu as escadas.

 O marujo ficou ali, sentado com a barra de ferro agradecendo a sua sorte.

 

O texto acima foi escrito em cima de uma história que meu avô me contou quando eu era pequeno, se é verdade ou não, isso pouco importa agora, porém achei interessante e a transcrevi em texto. Grande Seu Delmiro...


Escrito por Kaworu às 09:48:54 PM
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6/6/08

Não

Conseguiu uma brecha no plantão para ligar, feriados prolongados sempre são movimentados, principalmente para residentes, aguardou ansiosamente pela voz suave dela e ficou somente nisso, no aguardo já que ela não atendeu o celular.

 Ela deitou na cama, com o corpo nu e os braços abertos, escutou o telefone tocar sim, porém se encontrava ocupada, muito bem ocupada como disse para o seu acompanhante. Esse veio enrolado na toalha e parou para admirá-la.

- Escuta você não acha errado fazer isso com ele, Luna? Afinal ele não me parece ser um cara ruim, porque não diz a verdade e ficamos juntos.

Ela levantou da cama e foi ao seu encontro.

- Não vejo necessidade disso, posso ficar com o melhor dos dois, o dinheiro dele e o seu corpo.

- Luna, que dinheiro? Ele é um estagiário!

- Residente – corrigiu ela.

- Trocou seis por meia dúzia. – resmungou.

- Eu sei que no momento ele ainda ganha pouco, mas ele vai ficar bem rico e quero acompanhá-lo desde o começo, para poder aproveitar depois. E com essa vida de médico, com quem irei brincar?

- Luna... Seu casamento é amanhã. Cuidado, ele pode saber.

- Nunca, querido. Casarei-me amanhã linda e loira como sou e viajarei de lua-de-mel. Agora deixe eu ir, tenho muita coisa para acertar ainda.

Despediu-se dele com um beijo, ele aguardou a porta se fechar e pegou o celular.

 O casamento iria começar a pouco, flores, arranjos, comida, tias com vestidos cheirando a naftalina e penetras já se mantinham a postos. A marcha nupcial começou a tocar e Luna entrou deslumbrante na igreja, ele, a aguardava com uma calma surpreendente, ela chegou e foi entregue a ele. Ajoelharam-se e o padre começou o discurso nupcial. Ao virar e dizer:

- Luna Alves Silva, aceita Leônidas Oliveira como seu legítimo esposo...

- Sim – disse ela feliz

- Leônidas Oliveira, aceita Luna Alves Silva como sua legitima esposa, para amá-la e respeitá-la...

Ele segurou um silêncio apavorador, ela cochichou algo em seu ouvido, ele respondeu que estava nervoso e após um suspiro deu a resposta:

- Não – disse e se levantou pediu licença ao padre e saiu da igreja tirando o uniforme de noivo.

Num canto da igreja um homem desconhecido para a maioria era só sorriso com a cena que causou com apenas uma ligação.


Escrito por Kaworu às 10:12:33 PM
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29/5/08

Post comum.....

 Hoje resolvi não postar nenhum texto, não que eu esteja sem nenhum disponível em meus arquivos ou que minha criatividade tenha dado uma volta e não tenha voltado ainda, não, não é por esses motivos... Essa semana quero somente “conversar” tenho conhecido alguns blogs incríveis que tenho ficado literalmente viciado em ler. E é animador encontrar tanta gente inteligente nessa internet que às vezes chega a dar medo, por tanta gente vazia. Mudando de assunto, tenho escutado muito Chico Buarque (esquisito? Eu não acho, sou novo, mas não tão alienado assim) tenho me alimentado das letras e entristecendo em ver que atualmente o que faz sucesso, são os “creu” da vida e mulheres com nome de fruta (!?!?) bom... é isso semana que vem volto a mostrar meu estado de espírito através da ficção que é uma das coisas que faço melhor. Já que falei de Chico Buarque, coloco a letra de uma música dele que gosto muito.

 

Construção – Chico Buarque

 

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

 

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

 

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

 

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir,

Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir

Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,

Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir

E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir

E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,

Deus lhe pague

 

 


Escrito por Kaworu às 10:08:08 PM
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