
O vapor da água quente dominava o banheiro a pelo menos vinte minutos, ao sair passou a mão no espelho embaçado e jogou os cabelos de um modo tosco, se perfumou e foi para o quarto, preparada para o “combate”. Prendeu os longos cabelos negros, pintou o rosto e aumentou alguns centímetros com o salto alto e caminhou para a sala de combate. Viu o “inimigo” ali, sentado a espreita de um erro seu. Achou estranho ele não iniciar o combate, e por isso deu o primeiro tiro:
- Pai. Estou indo para uma festa de aniversário. Da Fernanda, você a conhece - usou isso como um trunfo – eu já disse para ela que iria e a minha mãe deixou – segundo tiro – Pai? Você está ouvindo.
- Sim, alto e claro minha filha. – respondeu ele sem mudar o tom de voz, a deixando preocupada.
- Bom – continuou ela – como eu disse, irei para a festa, é em uma boate não muito longe daqui.
- Certo – disse com o mesmo tom de calma de antes.
- E como a cidade está muito perigosa, vou chegar de manhã cedo – terceiro tiro.
- Realmente a cidade anda muito perigosa, chegar de manhã é melhor do que você chegar de madrugada, mesmo alguém te trazendo de carro – a calma continuou entranhada em sua voz – na minha época eu fazia isso também.
- Na sua época, pai? Tinham boates na sua época?
- Sim, com uma quantidade menor de corpos bonitos sem cérebro e com menos drogados eufóricos. Os jovens de hoje se preocupam tanto com o corpo, com o peitoral e o “tanquinho” e esquecem de malhar a massa encefálica.
- Quem precisa ser inteligente com um peitoral definido? – disparou ela
- E pelo visto eles não são os únicos a pensar assim. Você leu algum livro que eu te dei?
- Não, tem muitas páginas.
- Engraçado, alguns têm uma quantidade de páginas menor do que suas revistas de fofoca.
- Pai esses livros não tem figuras! – disse como se fosse um absurdo.
- São livros para leitura, querida e não livros para colorir por isso não tem figuras, aliás, alguns até têm figuras ilustrativas. Seria só questão de procurar. – sentindo que a estratégia começava a funcionar continuou – se subir ao seu quarto e trazer aqui para baixo podemos procurar as figuras.
- Procurar figuras? – disse tentada – acho difícil você achar alguma em algum desses livros que você me deu – começou a achar mais interessante mostrar que o pai estava errado – vou trazer todos aqui para baixo e vamos ver se há figuras em algum deles!
- Devagar filha, pois são quase trezentos livros – disse fingindo preocupação.
- Eu faço mais de uma viagem – disse descendo as escadas com o cabelo agora já solto e voltou a subir, na última pilha de livros que trouxe já estava com roupa de dormir.
- Senta aqui do meu lado, vamos começar a procurar essas figuras – disse o pai, vitorioso.
Chegou. Falou. Escutou. Respondeu. Alegou. Injuriou. Agrediu. Agrediu novamente. Gritou a plenos pulmões. Chutou. Falou mal. Parou. Chorou. Tomou um gole. Dois. Três. Acabou com a garrafa. Brincou com o gato. Xingou o gato. Jogou o gato longe. Tomou a segunda garrafa. A terceira. Quarta. Andou. Voltou. Avançou. Pegou a seringa. Aplicou. Viajou. Queria mais. Picou-se novamente. Acabou. Jogou a seringa na mesma direção onde jogou o gato. Precisava de mais. Mais. Mais. E mais.
Saiu pela rua. Ignorou o “oi” da velha fofoqueira. Pulou o muro. Correu pelo beco. Escalou outro muro. Bateu na porta. Disse o código. Entrou. Lugar imundo. Sentou. Esperou. Esperou. Ele chegou. Pediu mais. Ele negou. Queria o pagamento anterior. Prometeu pagar o mais rápido possível. Recebeu o que queria. Saiu. Pulou um muro. Correu pelo beco. Escalou outro. Respondeu ao “oi” da vizinha gostosa. Entrou em casa.
Acendeu o fogão. Jogou a panela. Vazia. Olhou
Escutou baterem na porta. Demorou. Insistiram. Ignorou. Insistiram novamente. Ignorou. Arrombaram a porta. Homens de farda. Ele se assustou. Eles pediram calma. Ele não aceitou o pedido. Pegou a arma. Atirou. Correu. Os homens revidaram. Erraram. Acertaram no botijão. Explosão. Nem dinheiro e nem seringas. Pouco sobrou.
As roupas brancas contrastavam com as peles negras e morenas, na época com certeza mais ainda do que hoje, o uniforme era uma salvação, salvação de uma vida sem perspectiva. No meio dos homens no navio, ele ficou com o esfregão, limpar o chão não era o pior dos trabalhos. Os braços finos de que começou na vida militar a pouco tempo balançou o esfregão de um lado para o outro.
Sentiu a chegada dele com medo no coração, por sorte passou por ele sem falar nada, talvez na próxima não tivesse a mesma sorte. O braço forte com uma tatuagem em forma de âncora derrubou o rapaz, propositalmente.
- O que é? – disse o tatuado, como se o rapaz tivesse dito algo – quer apanhar? – perguntou inflando o peitoral – espero que não, porque fraquinho do jeito que você é, vai perder rápido.
- Não – disse o rapaz assustado – tudo bem, eu tropecei sem querer – eu assumo a culpa, eu que esbarrei em você e cai – falou subserviente e com o coração pulsando.
De longe o rapaz do esfregão observava a cena, meio indignado, porém ali ficou com o esfregão a tiracolo.
- Me encontre na parte baixa do navio, resolvemos nosso problema lá – saiu socando o ar.
- Marujo, você vai precisar de muita sorte – disse um companheiro de trabalho – esse cara sempre chama os outros para brigar e até hoje ninguém foi, e por isso ele ficou assim, mas quem iria brigar com esse cara!?
- Eu sei, já ouvi falar dele, mas eu não vou fugir.
- Vai encarar o grandão? Enlouqueceu?
- Se eu não encarar ele vai me humilhar durante toda a vida, ele é meu sargento.
- Mais um motivo para você não ir.
- Eu vou.
Desceu as escadas tentando controlar o medo, sabia que se fosse para a luta de mãos limpas no mínimo seria hospitalizado, procurou por algo de útil no porão, ao encontrar uma barra e ferro a escondeu rente ao corpo e esperou encostado numa das paredes do porão.
Escutou os passos pesados de um corpo pesado, pesado não, forte, as pernas começaram a tremes e o coração saltitar. O medo quase o fez sujar as calças a barra de ferro tremia em suas mãos. Ele apareceu com as mãos na porta e riu ao ver o franzino o esperando.
- Você veio – falou surpreso – achei que não viria – já que você veio, vamos começar – estalou os dedos ameaçadoramente e o corpo estável do adversário permaneceu imóvel e o valentão ficou surpreso – olha, é corajoso, gostei de você, marujo. Se mexerem comigo me avise, pois eu dou um jeito, gosto de gente corajosa, é o primeiro que veio brigar comigo. Qual seu nome marujo.
- Delmiro – aumentou a voz tentando fingir firmeza.
- Delmiro, precisando é só me chamar – retrocedeu os passos e subiu as escadas.
O marujo ficou ali, sentado com a barra de ferro agradecendo a sua sorte.
O texto acima foi escrito em cima de uma história que meu avô me contou quando eu era pequeno, se é verdade ou não, isso pouco importa agora, porém achei interessante e a transcrevi
Conseguiu uma brecha no plantão para ligar, feriados prolongados sempre são movimentados, principalmente para residentes, aguardou ansiosamente pela voz suave dela e ficou somente nisso, no aguardo já que ela não atendeu o celular.
Ela deitou na cama, com o corpo nu e os braços abertos, escutou o telefone tocar sim, porém se encontrava ocupada, muito bem ocupada como disse para o seu acompanhante. Esse veio enrolado na toalha e parou para admirá-la.
- Escuta você não acha errado fazer isso com ele, Luna? Afinal ele não me parece ser um cara ruim, porque não diz a verdade e ficamos juntos.
Ela levantou da cama e foi ao seu encontro.
- Não vejo necessidade disso, posso ficar com o melhor dos dois, o dinheiro dele e o seu corpo.
- Luna, que dinheiro? Ele é um estagiário!
- Residente – corrigiu ela.
- Trocou seis por meia dúzia. – resmungou.
- Eu sei que no momento ele ainda ganha pouco, mas ele vai ficar bem rico e quero acompanhá-lo desde o começo, para poder aproveitar depois. E com essa vida de médico, com quem irei brincar?
- Luna... Seu casamento é amanhã. Cuidado, ele pode saber.
- Nunca, querido. Casarei-me amanhã linda e loira como sou e viajarei de lua-de-mel. Agora deixe eu ir, tenho muita coisa para acertar ainda.
Despediu-se dele com um beijo, ele aguardou a porta se fechar e pegou o celular.
O casamento iria começar a pouco, flores, arranjos, comida, tias com vestidos cheirando a naftalina e penetras já se mantinham a postos. A marcha nupcial começou a tocar e Luna entrou deslumbrante na igreja, ele, a aguardava com uma calma surpreendente, ela chegou e foi entregue a ele. Ajoelharam-se e o padre começou o discurso nupcial. Ao virar e dizer:
- Luna Alves Silva, aceita Leônidas Oliveira como seu legítimo esposo...
- Sim – disse ela feliz
- Leônidas Oliveira, aceita Luna Alves Silva como sua legitima esposa, para amá-la e respeitá-la...
Ele segurou um silêncio apavorador, ela cochichou algo em seu ouvido, ele respondeu que estava nervoso e após um suspiro deu a resposta:
- Não – disse e se levantou pediu licença ao padre e saiu da igreja tirando o uniforme de noivo.
Num canto da igreja um homem desconhecido para a maioria era só sorriso com a cena que causou com apenas uma ligação.
Hoje resolvi não postar nenhum texto, não que eu esteja sem nenhum disponível em meus arquivos ou que minha criatividade tenha dado uma volta e não tenha voltado ainda, não, não é por esses motivos... Essa semana quero somente “conversar” tenho conhecido alguns blogs incríveis que tenho ficado literalmente viciado
Construção – Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague